Púrpura secreta

Segunda-feira, Dezembro 27, 2004

Púrpura secreta

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É na terra um fogo breve.

Um fogo doce de palha,
húmido,
quase animal.

Uma concha suave-
mente trabalhada
pelas abelhas da sombra.

Insegura flor abrindo.
Quase boca, quase língua,
agressiva, transviada.

Aglutinada
púrpura secreta
clamando
por luz violenta.

Um punhal extenuado
de ferir
lábio a lábio.

Explosão lenta.




Eugénio de Andrade

Mudar de rumo

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Se dúvidas me restassem sobre a identidade da pessoa ou pessoas (sempre lhes foi difícil descruzar as identidades virtuais) que

- escreveram dezenas de comentários tipo spam, que apaguei
- comentaram em blogs que eu tinha linkados fazendo-se passar por mim
- finalmente depois de eu ter retirado a caixa de comentários, criaram mais tarde um blog com o nome igual a este, acrescentando apenas uma letra do endereço e colocaram sistema de comentários, confundindo as pessoas que iam comentar, eventualmente até criaram um endereço de mail semelhante ao meu, o que não sei transcende-me.


Se dúvidas me restassem ,dizia, elas teriam desaparecido quando há uns tempos, no blog dessa pessoa fiz um comentário apenas visível para ela e pararam os escrevinhares no falso púrpura secreta. Tão simplesmente.

Não ripostei da mesma forma, não visiono esse blog. Não joguei com as mesmas armas e ser-me-ia tão fácil, bastaria inventar meia dúzia de nicks, dizer-lhe uma verdades, dar-lhe trabalho a apagar comentários ou a explicar-se perante o cortejo de fãs. Mas isso seria tão fácil...Demasiado fácil, demasiado previsível, e tudo o que é fácil demais perde a piada.

Há várias formas de jogar com o adversário. Eu escolhi nenhuma, porque não considero propriamente um adversário alguém que joga anonimamente, que não nos olha nos olhos - e sim, acho possível ser leal na net ou na blogosfera, mesmo a potenciais 'adversários'.
Trocar de nick, inventar personagens para desestabilizar, e manter o seu como se blog deluxe fosse, ómeussamigoss...brincamos ou quê?

Os incautos que me perdoem mas também não foram espertos: se disse a uma pessoa que não fui eu a escrever determinado comentário e lhe expliquei que é possível e o como de alguém se fazer passar por outrém nos comentários, como é que ainda fica confuso?

Enfim,
este blog vai mudar de rumo, fazer contas à vida, o fim de ano aproxima-se e é tempo de balanço. Escondidos neste blog estão também comentários muito preciosos (leiam em espanhol, é mais bonito) e que me são queridos, de pessoas com quem me iniciei na blogosfera, as primeiras pessoas que li, que me leram, alguns amigos 'lá de fora'. Estão também os momentos de como-se-desenrasca-isto, os momentos de ajuda, a solidariedade de quem me viu perdida no meio de um problema com o blogger e eu já chorava baba e ranho ai que o meu blog se foi :)
Para essas pessoas, a L., o J., a A., o M. vai o meu muito muito obrigada e até já.



Adenda, e porque para o fim se guarda tantas vezes o melhor.
Uma das marcas deste blog foi ter sido, a partir de certa altura, como que atravessado por uma onda boa de solidariedade relativamente ao caso da Filomena Moreira. Agradeço toda a boa vontade das pessoas que me escreveram, as dezenas de mails que recebi e a que respondi, a publicitação em outros blogs deste caso. Creio que, se este blog tivesse tido o propósito de ter alguma espécie de missão, tê-la-ia cumprido ao publicitar, ao dar voz a um problema que está ainda muito encerrado entre quatro paredes. Manteve-se contacto com a jornalista que fez a notícia, e que foi sensível e atenta e que, no afã de dar a conhecer a espada de Dâmocles que pesa sobre aquela família, terá susceptibilizado algumas pessoas mais sensíveis, por se referir à doença de Chron como incurável. Sei da boa fé com que a notícia foi feita, senti a forma como a jornalista Sofia Cação se envolveu na questão e de como ambas nos congratulámos ou ficámos tristes com o desenvolvimento dos acontecimentos e com as diversas formas como foram recebidas as notícias. Agradeço também à simpaticíssima e competente jurista da Deco que com sensibilidade e vontade de ajudar ofereceu a sua generosidade pessoal e se deixou envolver. Acho que cada uma de nós, à sua maneira, fez o que pôde. Os bloggers foram receptivos e amigos e enviaram-me informações sobre a doença de Chron, que prontamente reenviei à Filomena. Indicações, médicos, acho que se fez o possível e nesse sentido se cumpriu o que não se tinha projectado. Por tudo isso vale a pena, veleu a pena tudo, o meu saldo da net é francamente positivo e feliz.


E com uma adenda deste tamanho, alguém se lembra ainda do texto pré-adenda? ;)

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

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Tinha 6 anos e fiz uma maldade. As minhas irmãs, para não contarem à minha mãe, obrigaram-me a fazer tudo o que elas quisessem durante duas semanas. Ao fim de uma semana não aguentei mais e contei eu mesma à minha mãe. Foi assim que fiquei livre.

Lhasa de Sela

Sexta-feira, Dezembro 10, 2004

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O meu bisavô vivia no Líbano. Adorava a mãe dele, mas o pai odiava o filho. Um dia não aguentou mais e, em 1895 embarcou num cargueiro rumo a Marselha. Tinha 11 anos. Nunca mais viu a mãe.



100 anos depois cheguei eu a Marselha.




(Lhasa de Sela, 6 de Dezembro, Aula Magna)

Terça-feira, Novembro 23, 2004

Sexta-feira, 26 de Novembro

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Quinta-feira, Novembro 11, 2004

Pelo Sonho é que Vamos

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Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.


(Sebastião da Gama)

Quarta-feira, Novembro 10, 2004

O começo da esperança

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A Filomena tem sido uma batalhadora na luta por uma oportunidade de apresentar o seu caso na Comunicação Social, para se fazer conhecida e ser ajudada. Não é dando o peixe que se ensina a pescar, isso não é solução para uma mulher jovem que eu creio que, bem acompanhada clinicamente, pode vir a ter uma vida, dentro do possível, saudável. No entanto há alturas, há urgências em que é imperativo o alimento, para o corpo,para a alma.
Daí a conta aberta na CGD, pois, se bem se lembram, as entidades credoras maravilhosas e cheias de facilidades na hora de oferecer crédito têm vindo a perder a gentileza dos primeiros tempos (fazem o seu papel, embora exagerem, e de que maneira, na falta de modos básicos; não me esqueço da arrogância na forma de contactar os devedores, facto que confirmei com entidades habituadas a renegociar dívidas com estas financeiras: falei ao telefone, a pedido da Filomena, com uma das funcionárias dessas entidades e senti que estava a falar com uma drª peixeira pelo que tive de lhe dar um pouco de travão, com todo o respeito pelas senhoras peixeiras).

Essa conta aberta na CGD servirá para ajudar a pagar o endividamento de cerca de €15 000,00, contraído na vã ilusão de uma cura. Podemos censurá-la?

A Divertarte, contactada pela Filomena e sensível à questão de 'ajudar a pescar' fez-lhe uma oferta de trabalho e ofereceu-lhe um curso de trabalhos manuais para fazer objectos à mão, com o gosto e a delicadeza que a Filomena. Os trabalhos que a Filomena já está a executar serão postos à venda através da Divertarte e podem aí ser encomendados, revertendo o lucro respectivo para o pagamento da dívida às financeiras e, não menos importante, para o sentido de realização pessoal e para apoio psicológico da Filomena. Sentir-se útil, dar passos, construir. É pouco mas é começo.

Boa sorte!

Esta é a Filomena. Lembram-se?



Sexta-feira, Outubro 29, 2004

Do Portugal Profundo

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“Primeiro eles vieram atrás dos comunistas
E eu não disse nada porque não era comunista.
Depois vieram atrás dos judeus
E eu não disse nada porque não era judeu.
Depois vieram atrás dos sindicalistas
E eu não disse nada porque não era sindicalista.
Então vieram atrás de mim
E já não havia mais ninguém para falar por mim.”


Martin Niemöeller, prisioneiro em Sachsenhausen e Dachau de 1938 a 1945, (tradução de A. Caldeira)


Com um abraço de solidariedade para o António Balbino Caldeira.


E desiludida com a Justiça nada cega deste país, ainda um Portugal profundo de interesses velados e compadrios, em que a justiça se escreve com letra pequena e permite que arguidos acusados e pronunciados por vários crimes de abuso sexual de menores, como o sr. Carlos Cruz, tenham tempo de antena em horário nobre na televisão estatal; Permite que a directora de um jornal semanário de grande tiragem e filha do principal advogado da defesa utilize o jornal para promover encapotadamente a defesa dos arguidos, apresente cassetes roubadas a outro jornal e o diabo a sete (lembre-se o conveniente sósia) - e o resultado de tudo isto: descredibilização da investigação policial.


O lema do Portugal Profundo tem sido o da memória: as vítimas últimas de todo este longo processo social, político e judicial foram e são as crianças abusadas sexualmente, psicológicamente e para a vida toda.

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

la vie pas en rose

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Viena em Paris

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Dame la mano*

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Sugestões para um fim de semana, a começar hoje (não custa sonhar).

No Porto, decididamente o que vai prender os meus sentidos todos ou quase até 23 de Janeiro é a exposição de Paula Rego em Serralves. Está guardada para dois dias próximos de mergulho numa cidade de beleza e boas recordações.


Em Lisboa, talvez espreite até 31 de Outubro a Estufa Fria, local belíssimo da infância e a precisar urgentemente de uma visita minha, a Exposição "Antecip'arte" - uma mostra de desenho, pintura, instalação, fotografia e vídeo, segundo reza o postalinho de divulgação à minha beira (fantástica esta expressão).

Na Culturgest temos o II Festival Internacional do cinema documental de Lisboa. Ora bem, aqui está um género que merece atenção e incentivo - já agora, os preços variam entre 1,5 € e 2 €, não há descontos e eu não tenho comissão ('tá mal, eu sei).

Alguém se lembra daquele documentário da Agnés Varda chamado 'Os respigadores e a respigadora'? O género documentário é excelente, se for bem 'feito', para a crítica da sociedade, para uma tomada de consciência cívica que anda ainda pelas ruas da amargura ou então serve de bandeira do BE. Ok, está mesmo nas ruas da amargura se serve de bandeira política do BE, eheheh...

O cinema documental, pois. Serve-se pois a seguinte ementa na sexta feira, 29, às 23h: "Dame la mano"*, e este é o resumo do prospecto de divulgação: Todas as noites de domingo, um pequeno restaurante de Nova Iorque transforma-se num pedaço de Cuba. As mesas são afastadas para dar lugar a uma pista de dança, que acolhe o imenso fervor dos exilados cubanos pela rumba. Boa maneira de começar o fim de semana, Nova Iorque, Cuba, dança, recordações e alegria com cheiro a saudade.

Percursos pelo País 2004 - o Festival Europeu de Artes e Espetáculos para um Público Jovem (malditas maiúsculas) - Lisboa, Évora, Coimbra, Viseu. Acabou a 24 de Outubro. Não tenho pena (vingança de público jovem a fugir)


E em qualquer lado, de preferência num cinema perto de si,

a vida é um milagre antes do anoitecer

Bom fim de semana:)

Sábado, Outubro 23, 2004

Um bom professor

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Incisivo e clarividente o artigo de Luís Aguiar Conraria, publicado no Público de 20 de Outubro último.
Destaco uma parte do texto, no todo que se centra nas capacidades pedagógicas dos docentes universitários e na valorização que um sistema de ensino faz ou pode fazer para incentivar essas competências, investindo nelas, não receando a avaliação dos docentes, que é inevitável, saudável e desejável e a ser feita pelos alunos.
O autor, doutorando numa universidade americana, faz a comparação entre a sua experiência como teaching assistance na exaustiva formação que lhe é dada e exigida pelo sistema americano de ensino superior e a que é oferecida aos docentes universitários em Portugal e, consequentemente, aos alunos, a nível de incentivo, de valorização, da disponibilidade para o próprio professor ser avaliado.



Tenho consciência de que não é fácil avaliar a qualidade pedagógica de um professor. Compreendo também que haverá alguns bons professores que serão injustiçados se um sistema de avaliação pedagógica, com consequência, for levado avante. Mas não nos esqueçamos de quantas injustiças são criadas ao não haver uma avaliação séria dos professores. É injusto para os alunos. É injusto para os pais. É injusto para os bons professores. É injusto para os potenciais bons professores que não encontram colocação nem nas universidades nem nos politécnicos.


E mais adiante:


São poucas (nenhumas?) as universidades portuguesas que têm estas preocupações pedagógicas. Talvez por isso, os meus melhores mestres tenham sido os do ensino secundário. Estes têm de passar por um estágio no início da carreira e, nalguma fase das suas carreiras, também acabam por ser orientadores de estágio.



O que é curioso é que para ser formando em cursos de formação a formadores ( a expressão é sobejamente conhecida e ficou célebre desde o tempo em que eram subsidiados pelo Fundo Social Europeu) é necessário a frequência com aproveitamento de um curso que pode durar até 6 meses ou mais, tanto quanto sei actualmente. Valorizam-se as competências comunicacionais, os formandos desse tipo de cursos aprendem a melhor forma de apresentar um tema, de cativar a atenção do aluno, de posicionar a voz, de adquirir uma postura adequada. São filmados, visionam as suas prestações em vídeo, localizam falhas, aprendem a rectificá-las. Porque não é aplicado este critério nas nossas universidades? ( pergunta de retórica...)

O problema não parte dos professores, mas da forma como o sistema está articulado. A maior parte deles preferiria, penso eu, que houvesse uma maior aposta na sua capacidade de formar, e não apenas na de transmitir conhecimento. O conhecimento é volátil, a formação não. Formar é vasto, dar aulas pode (?) resumir-se a ler o manual da disciplina, como aconteceu comigo numa cadeira do 3º ano da faculdade.

É-me impossível esquecer a minha professora de Português do antigo 9º ano (lá está, o exemplo vem do ensino secundário), que desafiou a turma a ir assistir a vários espectáculos. Nesse ano - tinha eu 14 anos - assistimos a uma opereta ao S. Carlos (O Barbeiro de Sevilha, impossível esquecer), e a peças de teatro no Teatro da Comuna e no Teatro D. Maria.

Penso que é uma questão de sensibilidade também. E de paixão pelo que se faz. Um professor que o é verdadeiramente, sabe intuitivamente como comunicar com os alunos, como os fazer apaixonar-se pelas matérias dadas. Penso ao mesmo tempo que as competências podem ser aperfeiçoadas, a bem da dignificação do papel do professor, da universidade, e tudo isto se reflectirá, em última análise, na aprendizagem do aluno e no entendimento saudável do que poderá ser a 'paixão da educação'.


Sexta-feira, Outubro 22, 2004

Cats (n)

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Via Ma-Schamba a descoberta do fotógrafo António Jacinto Pascoal.*




Cats

(António Jacinto Pascoal)


* a descoberta, para mim

Terça-feira, Outubro 19, 2004

espectáculo de solidariedade no Fórum Lisboa a favor da Saúde Mental: 26 de Novembro

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Recebi por mail esta informação de um espectáculo de solidariedade pela Saúde Mental, para angariar fundos e ajudar a desestigmatizar as pessoas que sofrem de doenças psiquiátricas. E não são poucas, são é envergonhadas. Natural. Num sociedade de aparências obcecada com a beleza e o sucesso, qualquer desvio à normalidade é (ainda) camuflado - e quem não sabe é como quem não vê. Ora eu acho que se deve 'ver' para que enquanto sociedade e indivíduos possamos encontrar a melhor forma de aceitar, ajudar e desdramatizar.


O espectáculo será no próximo dia 26 de Novembro, às 22h, no Fórum Lisboa e contará com os grupos Gaiteiros de Lisboa e Sétima Legião ( o Rodrigo Leão tocará nos Sétima Legião). Os bilhetes já estão à venda na FNAC e Ticket Line. A partir de 1 de Novembro estarão à venda também no próprio Fórum Lisboa ( 18 € Plateia e 15 € no Balcão ).

Como mal temos dinheiro para fazer uma promoção a sério, todas as ajudas serão bem vindas.